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domingo, fevereiro 22, 2004

Carnaval, festa da carne mal-passada

Nunca fui um aficcionado por carnaval. Na verdade, é um tremendo incômodo pra mim toda a indústria carnavalesca. Não gosto de desfiles, e agora eles existem até em São Paulo! Um paradoxo comparável apenas à existência de vendedores de queijo coalho na Antártida. Os sambas de antigamente, verdadeiras obras-primas da música popular, transformaram-se em batuques repetitivos, acompanhados de uma letra que não faz o menor sentido. As agremiações recreativas deixaram de ser uma forma de expressão do povo para se transformarem em empresas. E, para estragar tudo de uma vez, o carnaval baiano alcançou projeção nacional, levando a todos os cantos, do Oiapoque ao Guaraná Chuí (cadê o jabá?), a escrotice da Axé Music, dos abadás, de ACM.
Tudo isso regado a muito, mas muito capim, erva, arame, bufunfa, pila, o vil metal.
Verdade seja dita, meus caros; assim como tantos outros (incluíndo as "micaretas" e "folias", que nada mais são do que a institucionalização da vagabundagem ao longo do ano), o carnaval deixou de ser um evento popular para ser exclusivo de quem tem cascalho no bolso. Claro, quem é pobre também se diverte! Catar as migalhas que caem do camarote da Brahma deve ser divertido, além de nutritivo. Ora, até os condenados ao circo romano tinham sua vez; fugir dos leões devia ser "a maior adrenalina"...
Uma das possíveis origens para o vocábulo "carnaval" seria a expressão latina carnem levare, "libertação da carne" (ou "adeus à carne" em uma tradução livre), expressão designativa da Quarta-Feira de Cinzas, dia em que se deixava de comer carne devido à Quaresma. A carne de hoje está exposta em biquínis sumaríssimos, toplesses ou mesmo a desavergonhada nudez, turbinada com lipoaspiração, silicone e esteróides anabolizantes. Ninguém vai deixar de fazer churrasco nos próximos quarenta dias, mesmo; eu não reclamarei da nudez feminina espalhada para todos os lados pela tevê (o que me incomoda é o fato de nenhuma dessas tetéias querer dar pra mim) e já existe um projeto de lei para reduzir o ano de doze para dez meses, relegando Janeiro e Fevereiro ao limbo.
Não, não existe tal projeto. O ano de dez meses brasileiro é um claro exemplo de direito consuetudinário, modelo de tudo o que funciona nesse mundo - como o sistema jurídico inglês, o jogo do bicho e as filas.
Eu prefiro me recolher à minha majestosa insignificância, se me permitem o trocadilho; ler meus livros e ouvir rock progressivo, só me permitindo ouvir "poeira, poeira" durante as transmissões futebolísticas.
Se Ivete Sangalo gostaria de fazer dinheiro com poeira, por que diabos não virou faxineira ao invés de ficar nos torturando com essa maldita canção?

Os festejos de momo misturam-se com a comemoração rubro-negra pelo primeiro campeonato em três anos. Desde a Copa dos Campeões de 2001 o rubro-negro não levantava um caneco; não satisfeito em quebrar o jejum, o time da Gávea vai estabelecendo uma supremacia sobre seus irmãos cariocas, os chamados "grandes" do Rio. A esta altura somando sete vitórias consecutivas sobre Vasco e Fluminense, estando o Botafogo fora da conta por razões óbvias, o manto sagrado começa a pesar não apenas sobre os ombros daqueles que têm a honra de envergá-lo, mas também sobre aqueles a quem começa a envergonhar.
Desde Stendhal e os anos "Zico" que o vermelho e o preto não faziam tanto sucesso.